ARTUR RODRIGUES
Dois delegados acusados de engolir uma suposta lista de propinas
recebidas por policiais civis foram absolvidos na sexta-feira. A juíza
Lilian Lage Humes, da 15.ª Vara Criminal do Fórum da Barra Funda,
considerou que, apesar dos indícios contra os réus, as provas colhidas
não são suficientes para a condenação por supressão de documentos.
Os dois foram presos em 3 de fevereiro do ano passado, quando Eliton
Martinelli era delegado titular do 42.º Distrito Policial (Parque São
Lucas ) e Flávio Affonso da Costa era seu assistente. Agentes da Divisão
de Operações Policiais, da Corregedoria, haviam detido dois
investigadores na delegacia e, quando estavam indo prender um terceiro,
deixaram a lista na mesa do delegado titular por “20 segundos”. Quando
voltaram, segundo seu relato, o documento havia sumido.
Os delegados conseguiram a liberdade na Justiça dois dias após a
prisão. O advogado deles, Ademar Gomes, afirma que ambos foram “vítimas
de um linchamento moral praticado por policiais negligentes”. Por isso, a
defesa processará o Estado, pedindo à Justiça R$ 500 mil para cada um
dos acusados por danos morais e materiais. Segundo Gomes, os policiais
que participaram da operação que resultou na prisão deles serão
processados.
A juíza Lilian disse na sentença que decidiu inocentar os réus
porque, “embora haja indícios de autoria, a prova colhida não é robusta o
suficiente para embasar um decreto condenatório”.
Desde que obtiveram o direito de responder ao processo em liberdade,
os dois delegados continuaram na ativa, segundo o advogado deles. “Eles
ficaram trabalhando, mas sem direito a receber promoções”, disse Gomes.
Os delegados não querem dar entrevista sobre o episódio.
A lista de propinas que a Corregedoria afirma ter sumido se referia a
dinheiro extorquido de comerciantes na zona leste da capital. Entre as
irregularidades cometidas nos pontos comerciais estavam jogo do bicho e
exploração de máquinas caça-níqueis. No papel, havia nomes de
comerciantes e os valores pagos por cada um, totalizando R$ 56 mil.
De acordo com a investigação da Corregedoria, três investigadores do
42.º DP faziam o recolhimento de propinas toda sexta-feira. No entanto,
resolveram pegar o dinheiro um dia antes por saber que seriam
transferidos para o Departamento de Investigações sobre o Crime
Organizado (Deic). Quando corregedores foram à delegacia checar as
denúncias, encontraram um investigador conversando com dois empresários.
Logo depois, outro policial estacionou seu Volkswagen Jetta no
distrito. Dentro de uma pochete no carro, estava a lista de propinas. Na
ocasião, segundo os corregedores, o policial admitiu ser o responsável
pela recolha.
Após o sumiço do documento, os investigadores acabaram sendo ouvidos
pela Corregedoria como testemunhas. Os suspeitos negaram tudo, inclusive
a lista.
Disponível em: http://blogs.estadao.com.br/jt-seguranca/16751/ Acesso em 31.01.2012
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